quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

SOS PROFESSOR SENIOR

  • ROTINA DA NÃO-QUALIDADE DA EDUCAÇÃO
Chegou a época do ano em que a mídia repete a  notícia da falta de professores em inúmeras escolas públicas de todo país.  O início do ano letivo não chega para todos, principalmente no ensino médio, em algumas matérias importantes como Matemática, Física, Química. Problema crônico, generalizado e inaceitável quando se pretende uma educação de qualidade. Enquanto não sobram professores  uma sugestão razoável seria a de se ter um corpo docente de reserva, pronto para atender emergências, mas que não pesasse nos cofres públicos a longo prazo. Isso mesmo: temporários que se sentissem confortáveis nessa posição.  É possível e viável sob o aspecto financeiro.

  • TENDÊNCIAS
O ensino médio brasileiro vive  acentuada  escassez de professores que irá piorar em breve, pois as matrículas continuam crescendo, em especial nos sistemas públicos e a preparação de docentes, apesar de todos os esforços,  não está acompanhando essa expansão. Ao mesmo tempo, existem reservas inaproveitadas de recursos humanos qualificados   dentre as pessoas da terceira idade, que tendem a aumentar, configurando um desperdício de alto custo econômico e sérias consequências humanas. Nossa população sofre rápido processo de envelhecimento.  O Censo de 2010 registrou a elevação da vida média do brasileiro para mais de 73 anos e contou 20,5 milhões de residentes com 60 e mais anos de idade, equivalentes a 11% da população total. Em 2000 eram só 8,6% - 14,5 milhões de pessoas. Em 2009, na PNAD do IBGE, 46%  dos idosos se declararam saudáveis e capazes de trabalhar. Em diversos países que tiveram sua transição demográfica  antes do Brasil, prevalece o conceito do “envelhecimento ativo”, com total inserção social do idoso, inclusive no mundo do trabalho, onde é capaz de realizar atividades não braçais pelo menos até os 75 anos de idade – um novo “ciclo produtivo”, com características peculiares, que representa um acréscimo substancial no período de utilização  desses recursos humanos.  Estratégia válida para reduzir custos e superar a carência (principalmente a sazonal) de alguns tipos de profissionais que têm um papel socieconômico relevante e cuja formação é demorada e cara. E também para evitar problemas psicológicos graves, como depressão e outros distúrbios criados por inatividades indesejadas da população idosa. Questão que  faz parte da agenda de responsabilidade social de muitas empresas, que aplicam, a seus empregados, programas de transição e adaptação quando a aposentadoria se aproxima.

  • ASPECTOS GERAIS DO PROJETO “SOS-PROFESSOR SENIOR” (SOS-PS)
O PROJETO SOS-PS utilizará idosos com nível  universitário e devidamente capacitados, no magistério do ensino médio público, atacando simultaneamente os problemas mencionados. Um,  já totalmente identificado – a carência de docentes – e outro ainda restrito aos artigos técnicos e teses acadêmicas – causado pelo rápido envelhecimento da população brasileira, cujas consequências mereceriam maior atenção. O Projeto envolveria profissionais recrutados dentre:  (1) o pessoal de nível superior, ainda em atividade,  mas perto da aposentadoria;  (2) os indivíduos da terceira idade com diploma universitário, inativos, mas capazes e potencialmente desejosos de trabalhar e (3) os  professores que já chegaram à idade de aposentadoria mas querem continuar lecionando. Pessoas idosas têm motivações as mais diversas para aderir ao Projeto: algumas  para se sentirem ainda úteis à sociedade; outras para escaparem à rotina da aposentadoria; outras mais para iniciar uma nova carreira ou ainda complementar seus rendimentos. Recrutados após intensa mobilização na mídia, cadastrados em um Banco de Recursos Humanos (BRH), selecionados e treinados, esses contingentes poderão ser aproveitados de várias maneiras em favor do ensino médio público: a) fazendo parte de uma força-tarefa que atenderá a chamados de emergência (SOS) para dar aulas presenciais nas escolas onde, por qualquer motivo, haja falta de professores; b) lecionando presencialmente, em horários extra  ou nas férias, para grupos de alunos que se preparam para exames vestibulares e ENEM, ou então para os que necessitem de reposição de aulas perdidas por greve/calamidade pública ou ainda que careçam de recuperação/reforço pedagógico por demonstrarem mau aproveitamento escolar; c) prestando serviços educacionais a distância aos alunos do ensino médio, nos regimes de tutoria ou “tira-dúvidas”, em arranjos logísticos diversos que vão do trabalho em “call-centers” especializados em educação ao teletrabalho desde suas residências ou telecentros comunitários. Tarefas com características que as tornem atraentes, convenientes e leves para os idosos. Um novo “ciclo de trabalho”, com especificidades adaptadas à terceira idade. Pesquisas de opinião entre os participantes podem  dirimir dúvidas a respeito dessa atratividade e manter aceso seu entusiasmo.

  • EXECUÇÃO DO PROJETO

Pré-condição:  Supondo que o Projeto será gerenciado por uma ONG (idônea, é claro), esta deverá, de início, propor e formalizar uma parceria com a Secretaria Estadual de Educação (SEE), que tem a responsabilidade legal de administrar  o ensino público de nível médio na região escolhida. Mobilização: O Projeto deve ser  lançado com publicidade intensa, utilizando TV em horários nobres, com personalidades conclamando os interessados ao cadastramento por meio da internet, no site da ONG (ou do Projeto). Nesse momento inicial, além da grande mídia, inúmeras instituições podem ser envolvidas e contribuir para essa mobilização, através de seus cadastros e veículos internos. São aquelas: i) com ponderável participação da terceira idade em seus quadros sociais como clubes esportivos e militares, academias de ginástica, Conselhos Profissionais, associações de engenheiros, médicos, arquitetos,  advogados etc; ii) com parcelas substanciais da clientela constituídas de idosos (laboratórios farmacêuticos, agências de viagens, planos de saúde, seguradoras); iii) que já desenvolvem projetos para a terceira idade (alguns planos de saúde como a UNIMED, bancos, empresas dos setores alimentício e farmacêutico). A campanha de mobilização deve cuidar para que todas as pessoas recrutadas para o SOS-PS estejam tocadas pela mística  de sua missão, extremamente importante para o futuro dos jovens estudantes e o aperfeiçoamento da educação nacional. Com a sensação de que renascerão para a vida ativa e que sua história de trabalho terá sequência, um PS - de “post scriptum” e também de Professor Senior.   Cadastramento, Classificaçâo e Treinamento: O Projeto, após o primeiro esforço de mobilização, receberá os cadastros dos  residentes na região escolhida para implementação, interessados em participar. Os  cadastrados vão compor um Banco de Recursos Humanos (BRH). No processamento dos cadastros dos candidatos, estes  serão selecionados e classificados em função da complexidade do treinamento que precisarão receber para o exercício da atividade docente. Os participantes precisam familiarizar-se com as características do Projeto e o modo de  relacionamento com a SEE, o que demandará um rápido treinamento introdutório – que será comum a todos os grupos. Afora isso, alguns terão necessidade de atualização de conteúdos e de capacitação em práticas pedagógicas (Didática Geral  e prática de ensino relativa à disciplina de eleição); outros, em apenas um desses aspectos; outros mais já estarão qualificados, prontos para utilização. A imediatez do aproveitamento dos cadastrados seguirá a ordem lógica: os que precisarem apenas do treinamento introdutório serão utilizados  primeiro, seguindo-se os dois outros grupos. A capacitação dos Professores Seniores será realizada pela própria SEE ou por instituição de ensino superior por ela indicada. A SEE regulará a utilização e supervisão dos docentes.  Utilização:  A mecânica de utilização dos Professores Seniores no caso do atendimento presencial, nas escolas, seria a seguinte: 1. a SEE comunica ao Banco de Recursos Humanos (BRH) quantos docentes necessita, de que disciplinas, em quais períodos, horários  e locais. Essa comunicação é feita por via telefônica, com confirmação por meio da internet; 2. o BRH consulta seus dados, faz contacto com os Professores Seniores cadastrados que correspondem ao pedido da SEE e moram próximo às escolas necessitadas, dirigindo-se depois  à SEE, por iguais vias (telefone e internet),  mencionando que carências poderá atender e dando o nome dos Seniores recrutados para a prestação de serviços, com respectivos locais, horários e disciplinas a ministrar. O credenciamento dos Professores Seniores e o orçamento dos serviços a serem prestados  acompanham a resposta, para aprovação pela SEE e posterior acerto financeiro. O atendimento tipo “pronto-socorro” objetiva resolver “aqui e agora” o problema da falta do professor na sala de aula, qualquer que seja o motivo. É uma solução de natureza extremamente aleatória do ponto de vista do Professor Senior, a qual poderia desestimular os idosos menos requisitados para essa prestação de serviços.  Em contrapartida, esses chamados SOS, alguns imprevisíveis e “para hoje”, terão para os idosos o apelo da quebra de rotina, do chamamento para experiências novas, em ambientes variados, dando um tom heroico, patriótico e humano ao seu envolvimento no Projeto. Daí a abreviatura sugestiva, SOS-PS, significando que as pessoas da terceira idade engajadas no Projeto  estão sendo chamadas para socorrer um problema nacional importante, beneficiando um grupo estratégico para o futuro do país - os estudantes do ensino público brasileiro – e assim voltando ao mercado de trabalho. Essa aleatoriedade será compensada pelo fato de que o Professor Senior também  atuará de modo mais sistemático, dando aulas de reposição, recuperação e reforço pedagógico para alunos necessitados dessa atenção mais individualizada. Nesse sentido, serão organizados grupos de alunos a serem atendidos em horários fora da carga prevista na legislação. Esse tipo de atuação terá caráter compensatório para os alunos que ainda estão no sistema  mas foram prejudicados em anos recentes pela carência de professores. Esse esforço emendativo  gerará retorno pela economia resultante da redução dos índices de reprovação, repetência e deserção. O Professor Senior pode ter outra utilização, no campo da Educação a Distância, servindo na tutoria aos alunos da rede pública de ensino médio, os quais acessariam (via telefone ou via computador) uma Central SOS-PS, sempre que tivessem dúvidas sobre alguma disciplina de seu curso.  A Central redistribuiria o trabalho para os Professores Seniores. Financiamento: O Projeto dará uma  resposta apenas parcial aos problemas que pretende atacar, ficando claro que o BRH só terá a obrigação de atender no curto prazo aos pedidos da SEE que estejam dentro de suas possibilidades imediatas, não havendo o compromisso de suprir todas as necessidades surgidas e explicitadas pela SEE. O acordo preverá de que forma os docentes serão remunerados e como se fará a repartição das despesas entre a SEE e os mantenedores da ONG. Este Projeto poderá ser financiado por algumas empresas que já estão conscientes das consequências do envelhecimento da população brasileira, como os planos de saúde e seguradoras. Pode também suscitar o interesse dos laboratórios farmacêuticos que têm grande parte de seu faturamento proveniente da venda de remédios de uso prolongado e de bancos, pois os investidores da terceira idade constituem fatia crescente dos aplicadores no mercado financeiro. E também de empresas que aplicam, a seus empregados, programas de transição e adaptação à aposentadoria. É viável o patrocínio simultâneo, por várias empresas, no regime de cotas em dinheiro, correspondentes a  um certo número de professores-hora a serem postos à disposição da SEE, que por seu turno poderia dar uma contrapartida financeira que confirmasse seu interesse no Projeto. Não é fora de propósito projetar um futuro aporte de recursos de órgãos públicos federais como FNDE do MEC e FAT do MTE, desde que observados resultados positivos. 

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

PROFESSOR TALENTOSO: ESSENCIAL NA EDUCAÇÃO DE QUALIDADE

O professor talentoso, bem formado e motivado, é um fator de primordial importância para a educação de qualidade. Mas os jovens brasileiros talentosos não se imaginam dando aula numa escola pública de ensino básico.                                                                                                   
Para cada país, em determinado momento, existem profissões com maiores ou menores atrativos. Há, inclusive, aquelas que sofrem rejeição, como é o caso da carreira de professor de educação básica no Brasil atual. Os especialistas invocam as chamadas forças de atração e de repulsão, que explicariam a cotação que os candidatos a emprego atribuem às diferentes opções que lhes são oferecidas pelo mercado. Mas não há uma lógica irrefutável. O problema é complexo e envolve muitas variáveis, tanto objetivas quanto intangíveis: remuneração, prestígio social, estabilidade no emprego, condições de trabalho, vocação, busca de notoriedade, tradição familiar... Enfim, um emaranhado causal  indecifrável. Mas uma coisa é certa: a carreira de professor de educação básica não tem grande atratividade no Brasil, especialmente para o exercício profissional nas escolas públicas, embora também apresente muitos aspectos positivos. As estatísticas causam alarme e registram que as Licenciaturas, relativamente, têm cada vez menos candidatos que as demais carreiras tradicionais e que os futuros docentes têm resultados acadêmicos progressivamente mais fracos a cada ano. Seria esse um motivo para desistir de recrutar um professorado constituído de pessoas talentosas? Certamente que não! Afinal, os incontáveis cursos de teatro, dança, música, bailado etc mantidos pelas ONGs nas comunidades carentes do Brasil vivem repletos, assim como os seus similares frequentados pelas classes médias, mas todos sabem das agruras e incertezas das respectivas profissões. Afora umas poucas centenas de artistas que fazem sucesso e fortuna, a imensa maioria desses trabalhadores vive penando nas piores condições, em busca de um lugar ao sol. Qual será o mistério dessa atratividade pelas luzes da ribalta que a sala de aula não tem?  
  • A EDUCAÇÂO DEVE TER SEU PROGRAMA DE TV!
A televisão é tão potente e influente no Brasil que há quem lhe atribua a capacidade de mudar paradigmas, criar ídolos e vilões, vender o invendável. “Não deu na  TV ? Não aconteceu !” (Walter Clark, Diretor de Rede de TV). Uma hipótese razoável, portanto, é que quando os artistas aparecem na mídia, estão ali para se exibir e brilhar, ganhar notoriedade e aquele sempre bem-vindo prestígio social inerente às ocupações da área cultural. As situações de insucesso, penúria, vícios, infelicidade, embora frequentes, só raramente são focalizadas. Em contrapartida, a atividade do professor de educação básica tem sido mostrada pela mídia exatamente nas condições mais desfavoráveis: ao sofrer algum tipo de violência; reivindicando melhoria salarial em greves intermináveis; quando sua escola deixa de funcionar porque houve tiroteio nas vizinhanças ou o teto da sala de aula caiu, por conta das infiltrações etc. A TV aberta está presente em praticamente todos os lares brasileiros e a influência que exerce é tão fantástica que a carreira do magistério do ensino fundamental e médio poderia ter um “ponto de inflexão” se recebesse sua ajuda deliberada e competentemente orientada. Uma sugestão seria produzir e veicular semanalmente, em cadeia nacional de emissora  aberta, de grande audiência, um Programa de TV sobre a educação, em sua realidade integral e não apenas pelo seu lado desfavorável. Agradável ao gosto popular, comandado por um comunicador consagrado, o Programa visará “virar o jogo” e conciliar uma audiência apreciável, atingindo o grande público, com o empenho em apresentar o professor e seu trabalho como temas centrais. Objetivará elevar o prestígio social e autoestima do professorado da educação básica, para reter/atrair talentos, notadamente para atuar no ensino público. Existem mais de 2 milhões de docentes em atividade em todos os níveis, espalhados pelo vasto território do Brasil, que o Programa atingirá  diretamente. Mas, potencialmente, todos os públicos serão tocados, de modo a mudar a percepção geral que se tem da profissão.
  • PROGRAMAÇÃO
Em princípio, a programação seguiria os modelos com grande audiência já existentes, que podem ser denominados de segmentados ou“setoriais” – caso dos programas rurais – e que tanto sucesso tiveram no Brasil, a ponto de se multiplicarem e tornarem onipresentes. Obviamente, a programação  dedicada  à educação básica terá aspectos diferenciais, de modo a atingir seus objetivos específicos. Após uma análise dos resultados das pesquisas existentes sobre as aspirações do professorado brasileiro, a equipe de produção do Programa definirá conteúdos e formatos iniciais. Ao longo da veiculação do Programa - e até utilizando-o como instrumento de coleta de informações - será possivel focar nos temas mais sensíveis ao professorado do ensino público e aos estudantes candidatos às Licenciaturas, já agora com sintonia fina, imprimindo à produção uma dinâmica objetiva, de base científica. No Programa idealizado, haverá um mosaico de formatos distintos: notíciário, entrevistas, reportagens, dramaturgia, documentários, seções fixas de perguntas/concursos e de interação com o público. Mas a constante será manter o professor como sua figura central, respeitada, reverenciada, amada, humana, benemérita, importante para o futuro do país, mostrando seu trabalho e seus exemplos positivos. O Programa exibirá ao público, sempre que possível, o professor real, que está atuando em sala de aula - e não um personagem, um ator. As  matérias com o mestre de carne e osso serão filmadas “in loco”, trabalhando em  sua escola ou na comunidade, de modo que tenha “os seus quinze minutos de glória”, um dos ingredientes básicos do projeto. Essa notoriedade, ainda que fugaz, exerce uma grande atração sobre nosso povo e o professor brasileiro do ensino básico – que não é diferente – precisa e quer aparecer, ganhar em autoestima, recuperar seu prestígio social. Visto como um elemento importante para a comunidade e protagonista do desenvolvimento nacional.
Independentemente de pesquisa, alguns conteúdos e formatos devem ser quase que obrigatórios no Programa:
a)Embora a educação brasileira seja de qualidade sofrível para ruim (vide colocações obtidas pelos estudantes brasileiros nos testes PISA da OCDE), há muitos trabalhos excelentes sendo feitos pelos nossos docentes, nos vários níveis de ensino. Utilizando o formato “reportagem”, deve-se focar nesses exemplos com o maior detalhe possível, pois que veiculados servirão para aperfeiçoamento dos demais professores, originando séries pedagógicas de educação a  distância e transmissão de práticas que oxigenarão o sistema;
b)A gestão de qualidade merece seu espaço midiático. Os trabalhos meritórios dos diretores das escolas básicas e das autoridades educacionais devem ser ressaltados nas reportagens, pois uma liderança dinâmica pode transformar comandados,  revelar  elementos úteis e laboriosos – cujo talento dormitava no marasmo  de um  sistema burocrático;
c)O noticiário atualizado sobre assuntos de interesse coletivo, como a legislação educacional (sem o “bias” da “chapa branca”), problemas e soluções do cotidiano escolar, os fatos curiosos vividos pelos professores em seu trabalho etc deve constar da grade programática, sempre apresentando o docente de forma positiva;
d)Ações de heroismo e dedicação extrema dos docentes brasileiros devem ser apresentados frequentemente e para isso a dramaturgia – ponto alto da nossa TV, internacionalmente reconhecido - jogará papel de relevo. Mostrando, por exemplo,  como a ação de um professor pode mudar a vida de pessoas ou comunidades inteiras. Na história do rádio brasileiro registra-se que em meados do século passado, a Rádio Nacional veiculava um programa de grande audiência que levou muitos jovens a optar pela carreira médica. O título era “Obrigado Doutor” e seu apresentador - famoso  - era o obstetra Paulo Roberto. Contava histórias fantásticas de vidas salvas pelo conhecimento científico, dedicação, intuição ou amor à profissão de médicos reais ou fictícios, geralmente clinicando no interior, sem dispor de maiores recursos. Um sucesso que comovia multidões!
e)O Programa deve ter também um concurso de perguntas e respostas só para docentes do ensino médio e fundamental, com ótimas premiações, crescentes à medida que o  candidato vá vencendo etapas, acertando todos quesitos, estabelecendo-se um limite superior de premiação bem elevado. Também no século passado, um programa de TV desse tipo fazia sucesso estrondoso: denominado “O Céu é o Limite”, seu comunicador era J. Silvestre. Os professores precisam ter a sensação de que, caso se esforcem, podem ficar famosos, ganhar milhões e que sua carreira não é “um beco sem saída”, rotineira e desprestigiada. E  o brasileiro deve conscientizar-se de que o saber do mestre tem valor inestimável;
f)No sentido de manter os docentes atualizados, o Programa deve divulgar pesquisas sobre educação realizadas no Brasil e no exterior, principalmente quando seus resultados  acarretarem inovações/reorientações no ensino. No formato de documentário ou noticiário, a seção deve dar prêmios de viagens para professores conhecerem  as inovações de sucesso;
g)As premiações de docentes devem ser uma constante do Programa. Proporcionar-lhes estágios em Universidades estrangeiras ou bolsas para Mestrado e Doutorado no Brasil, sempre em valores atraentes. O Programa deve contribuir para que desfrutem de oportunidades de uma educação continuada de qualidade. Os prêmios  serão atribuídos a docentes que realizem trabalhos pedagógicos notáveis, selecionados dentre as reportagens realizadas ou em concursos específicos promovidos pelo Programa;
h)O Programa deve manter um “site” na web, buscando a interação permanente com os telespectadores, por meios diversos, recolhendo sugestões, reclamações, opiniões, enfim recebendo o “feedback” sempre útil para o aperfeiçoamento do Programa.
i)A preocupação com a criação de conceitos novos, faltantes na educação brasileira, pode ser outra grande contribuição do Programa. A discussão de temas abordando “a escola como centro da comunidade”, “o controle de qualidade do processo educacional pela sua  clientela e não por órgãos públicos e burocráticos”, “a implantação da figura do professor de família, elemento democratizante para atuação junto às famílias pobres e miseráveis” etc etc podem dar origem a debates interessantes, para arejar o setor educacional e consequentemente gerar um ambiente mais propício aos profissionais talentosos.
O Programa, em rede nacional, atingirá o público telespectador em geral, conscientizando-o sobre a importância da educação e evidentemente devendo agradá-lo como espetáculo e entretenimento, de modo a maximizar a audiência. Mas para a equipe de produção do Programa, o público-alvo subjacente será o professorado brasileiro em todos os níveis, que se  quer valorizar, assim como jovens na fase de escolha da profissão, que se quer atrair.
As premiações em dinheiro, oferecidas pelo Programa, servirão de estímulo aos professores qualificados que ali verão sua chance real de desfrutar de uma boa qualidade de vida  Os prêmios em viagens de estudo atrairão pessoas talentosas, que almejam a oportunidade de crescer intelectualmente, aproveitar plenamente seu potencial. Não haverá dificuldades em produzir um programa do agrado do grande público, pois o Brasil faz uma televisão reconhecida mundialmente como de ótimo nível.  Desse modo, o Programa poderá, efetivamente,  mudar a atual percepção sobre o exercício do magistério no Brasil, mostrando as boas práticas pedagógicas, o dinamismo dos melhores exemplos de direção das escolas e a inovação nascida das pesquisas divulgadas. O Programa será financiado por meio do patrocínio, integral ou em cotas, de empresas de âmbito nacional, dentro de seus programas usuais de publicidade e marketing. Mas pode também concorrer, pela sua natureza, aos incentivos fiscais da área cultural (Lei Rouanet). Os indicadores de êxito serão audiência em alta, visitas maciças ao “site”, correspondência volumosa, envio espontâneo de matéria pelos professores e seus diretores.
São produtos esperados do projeto: a) a difusão de pesquisas educacionais, de inovações pedagógicas e de boas práticas de ensino; b) a educação continuada e consequente aperfeiçoamento dos docentes que assistem ao Programa; c) a produção de material bruto para séries de treinamento de professores; d) estímulo à meritocracia pela premiação dos mestres mais destacados; e) o aumento do prestígio social do professorado; f) a atração de talentos para a carreira; g) a criação de um amplo espaço participativo e de interação com o público para os docentes brasileiros; h) o debate dos grandes problemas da educação nacional e a introdução, nessa discussão, de conceitos inovadores e renovadores do setor.
  • CONCLUSÃO
Talvez não seja possível medir o imenso retorno financeiro que, nos últimos trinta anos, os programas rurais de televisão deram à produção da agropecuária e à renda do homem do campo no Brasil. Caso um exercício econométrico nesse sentido fosse possível e efetivamente realizado, seu resultado certamente aconselharia a implementação do Programa de TV sobre Educação aqui proposto. "Quem não se comunica se trumbica" (Abelardo Chacrinha Barbosa, animador de TV).       




segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

CONTROLE DE QUALIDADE E PESQUISA EDUCACIONAL

Os programas de aferição da qualidade do setor educacional devem servir, também, para mostrar os caminhos mais curtos para  resolver os problemas observados. De modo geral, esse tipo de instrumento cria grandes oportunidades de aperfeiçoamento do sistema - que podem ou não ser aproveitadas.
Um exemplo histórico é ilustrativo: a partir dos anos 40, Mário Augusto Teixeira de Freitas, um dos criadores do IBGE, realizou trabalhos pioneiros, utilizando indicadores de qualidade inferidos de estatísticas relativas ao fluxo dos alunos no ensino primário brasileiro. Em sua análise de evasão escolar, alertou  às autoridades “que os índices reproduzem situação de extrema severidade que atesta o fracasso da obra do governo em sua missão educativa”.  E concluía afirmando que o Brasil precisava “não de mais escolas e sim de melhores escolas de ensino fundamental”. Advertências que deveriam ter sido consideradas nas políticas públicas de então. À época,  a educação brasileira ignorava seus números, voltada que estava, prioritariamente, para a filosofia pedagógica e a psicologia do aprendizado.  O diagnóstico de Teixeira de Freitas – bem fundamentado e pertinente - caiu no esquecimento. Os estudos quantitativos não prosperaram e nossa  educação primária pública continuou deteriorando.  Oportunidade perdida!
Anos mais tarde, em 1965, com a criação do EPEA pelo Ministro Roberto Campos, seu Setor de Educação e Mão de Obra (depois transformado em CNRH - Centro Nacional de Recursos Humanos) retomou a utilização intensiva das informações do desprezado SEEC (órgão do MEC encarregado das estatísticas do sistema), calculando e analisando índices de escolarização, reprovação, repetência, evasão, distorção série-idade, ingresso tardio na escola, absenteísmo e realizando  estudos de fluxo escolar, empenhando-se no esforço de aferir a qualidade do sistema educacional brasileiro. Ensaios refinados, realizados com a assistência técnica do belga Jacques Torfs, competente e dedicado perito da UNESCO, lançaram luz sobre um grave problema que hibernava até então, ignorado pelas autoridades de nossa educação: as elevadíssimas taxas de reprovação  - e consequentemente de  repetência - no primeiro ano do ensino primário faziam com que nessa série se acumulassem estudantes de vários grupos etários (com 7, 8, 9 etc  até 14 anos de idade), que não eram alfabetizados e a repetiam  múltiplas vezes. Essa distorção série-idade acarretava gigantesco   congestionamento na entrada do sistema e  impedia o acesso de grande parcela das crianças das gerações seguintes, quando chegavam à idade de  escolarização obrigatória. A falta de vagas decorria primordialmente da má qualidade do atendimento na fase de alfabetização e o Brasil construía escolas de certa forma   desnecessárias, pois se as taxas de reprovação e repetência diminuíssem, seria possível, com o mesmo número de matrículas, atender a uma quantidade  significativamente maior de crianças. Não faltavam propriamente vagas e sim que o fluxo dos estudantes fosse normalizado, acelerado por meio de melhor qualidade de ensino, que se adaptasse às características dos alunos e reprovasse menos. A escola teria que responder às novas realidades de um país que se urbanizava rapidamente e cujos estudantes provinham agora, em sua maioria, de famílias carentes e tinham grandes dificuldades no primeiro  contato  com a escola e no aprendizado inicial da  leitura, escrita e cálculo.
Esse achado foi um ponto de inflexão na política educacional. Em face desse diagnóstico, tiveram início as  discussões sobre a implantação da promoção automática e semiautomática no ensino primário, as quais dariam, para os alunos carentes, maior tempo de adaptação à vida escolar e aumentariam suas probabilidades de sucesso acadêmico. O CNRH (Centro Nacional de Recursos Humanos) do EPEA realizou simulações matemáticas (teoria das filas)  sobre esses tipos de promoção, ressaltando o impacto positivo de sua adoção. Com o tempo, foram surgindo iniciativas que consideravam esse novo enfoque. Resultado mais concreto e imediato desses estudos de fluxo escolar foi observado na formulação das políticas públicas em que o CNRH tinha grande liderança: a partir daí,  deu-se a expansão maciça dos programas de alimentação escolar, de distribuição gratuita de livros texto e material pedagógico de uso dos alunos, beneficiando os estudantes carentes. Na mesma linha, procedeu-se, em 1966, à implantação do PEBE - Programa de Bolsas de Estudos integrais para filhos de trabalhadores sindicalizados, facilitando seu ingresso no ensino ginasial, até então muito seletivo já que predominantemente privado e pago. Para tornar viáveis esses programas, houve grande  aumento de recursos para o setor, possível a partir da promulgação da Lei do Salário Educação, pelo Presidente Castello Branco.          
No caso citado, a aferição de qualidade pelo EPEA, com a cooperação da UNESCO, identificou problemas e respectivas soluções, resultando concretamente na maior equidade de oportunidades e na melhoria da performance do sistema de ensino. Mas os ouvidos moucos para o brado de Teixeira de Freitas haviam atrasado essas medidas em mais de 20 anos!
O CENTRALISMO DO MEC  
Quando se afirma que a educação brasileira é deficiente, tal assertiva se baseia na aferição de sua qualidade por meio de alguma(s) das muitas metodologias disponíveis. 
A partir dos anos 90 o Brasil foi criando instrumentos governamentais de controle de qualidade do sistema educacional,  surgidos a partir de uma visão mais centralizadora. O  controle de qualidade individual, na ponta do processo, de responsabilidade do professor, foi sendo gradualmente relegado a plano secundário, embora ainda sirva para decisões a nível de aluno, turma e unidade escolar. Critica-se o intervencionismo federal nesse campo, a magnitude financeira e pedagógica que assumiu a respectiva parafernália e a importância talvez excessiva que passou a ter na vida futura dos estudantes, gestores escolares e estabelecimentos de ensino. Será que esses instrumentos têm realmente a precisão que lhes permita intervir tão profundamente?  Além dessa pergunta onipresente, contribuíram para essa crítica mais dura os inúmeros erros de execução do ENEM à época do Ministério Fernando Haddad, seus custos elevados e sua extrema vulnerabilidade à fraude, que pode prejudicar milhões de alunos brasileiros por ele avaliados.
·         Consultando os portais do MEC e INEP na internet, lá estão descritos os principais instrumentos de controle de qualidade coordenados centralmente,  pelo Governo Federal, a saber:  o ENEM, o ENADE, a Prova Brasil e o Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica (Saeb), o IDEB. O ENEM é o mais notório deles e merece análise específica, pelas suas potencialidades.
O  Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) criado em 1998, com o objetivo inicial de avaliar o desempenho do estudante ao fim da educação básica, passou a ser utilizado principalmente como mecanismo de seleção para o ingresso no ensino superior, que foi gradualmente eliminando os demais processos seletivos, próprios das IES. Explica-se: só os alunos que fazem o Enem têm acesso a programas de bolsas de estudo e gratuidade oferecidos pelo Governo Federal: o Programa Universidade para Todos – Pro Uni; o SISUTEC - Sistema de Seleção Unificada da Educação Profissional e Tecnológica  e o FIES - Fundo de Financiamento Estudantil.  Daí sua preponderância, eliminando os vestibulares descentralizados. 

·        O POTENCIAL DO ENEM
O papel do ENEM como instrumento de controle de qualidade do sistema educacional perdeu-se no tempo, assumiu papel secundário. Hoje o ENEM é um grande vestibular e um mecanismo de seleção de bolsistas do ensino superior. Mas os dados disponíveis no programa, que atinge já 6 milhões de estudantes a cada edição, são valiosos e isso interessa à melhoria da qualidade da educação brasileira.
O ENEM afere a qualidade do ensino testando seu “produto final”-  que é o estudante que concluiu a educação básica. A avaliação por meio do produto final, isoladamente, não teria valor, mas seguir os resultados do ENEM ao longo do tempo permite saber se estamos melhorando ou piorando, o que não é muito útil.
Mas o banco de dados do ENEM teria uma grande contribuição para a melhoria qualitativa da educação básica, caso fosse utilizado com essa intenção deliberada. Alguns poucos exemplos – dentre as muitas possibilidades existentes - são eloquentes:
a)      É possível classificar as escolas utilizando os resultados de seus alunos no ENEM. A cada ano o exame mostra quais são os estabelecimentos cujos alunos tiveram em conjunto os melhores resultados. Da mesma forma, o ENEM identifica as unidades cujos alunos tiveram os resultados coletivos mais fracos. O estudo detalhado das escolas de melhor resultado, ao longo do tempo, utilizando metodologias científicas robustas, certamente desvendaria os caminhos para a educação de qualidade. No outro extremo, a análise criteriosa dos estabelecimentos de pior resultado, ao longo do tempo, permitiria conhecer as deficiências que precisam ser prioritariamente combatidas, para melhorar a qualidade de ensino. E o estudo comparativo  entre as escolas dos dois extremos, provavelmente permitiria conclusões ainda mais esclarecedoras. Análise fatorial, construção de taxonomias, desenho de projetos experimentais etc são tarefas para cientistas sociais e matemáticos de ponta.  Algo justificado pela importância do objetivo.
b)      O fator econômico é extremamente importante,  pois a escola pública que o Brasil pode oferecer generalizadamente a sua população vai depender do custo unitário do aluno atendido, de modo que os resultados das pesquisas descritas em (a) têm que ser temperadas por considerações de níveis de prioridade, limite de despesas públicas etc
c)       Alunos de ponta, com melhores resultados no ENEM, devem ter suas trajetórias de vida escolar estudadas. O  foco em alunos de ponta, provenientes de escolas públicas, pode lançar luz sobre aspectos diferenciais das boas escolas de responsabilidade dos municípios, estados e federais.

A pesquisa em educação tem papel relevante na melhoria da qualidade do sistema. Há um longo e promissor campo de investigação a palmilhar no Brasil. Basta o MEC ter vontade política.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

POR UMA AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA DA QUALIDADE DA EDUCAÇÃO


A execução de um programa visando melhorar a qualidade da educação brasileira é, atualmente, a maior das prioridades nacionais.
Os vários programas de controle de qualidade comprovam a triste  realidade de um ensino precário, especialmente nos sistemas públicos de educação básica. Evidenciam, por outro lado, as grandes desigualdades de qualidade entre as escolas componentes do sistema. Confirmam, em última análise, a desconfortável  posição brasileira no teste  PISA, da OCDE, aparecendo sempre nas últimas colocações dentre os países participantes. Corroboram, também, os rankings internacionais em que nossas melhores Universidades figuram sistematicamente classificadas atrás de uma ou duas centenas das melhores instituições estrangeiras, rankings nos quais nossas atividades  no setor científico-tecnológico são consideradas  irrelevantes.
Os efeitos mais visíveis dessa “não-qualidade” são os inúmeros e angustiantes problemas com os quais nos defrontamos diariamente como sociedade organizada. No plano mais concreto da economia, tudo fica muito evidente: país deficiente em educação perde competividade e mercados a cada ano; a negligência duradoura em relação ao treinamento profissional resulta em “apagão” de qualificação da força de trabalho, alta rotatividade da mão de obra e baixa produtividade; a falta de inovação e as deficiências gerais de gestão pública têm também, como pano de fundo, uma educação ruim. Todo esse cenário adverso é responsável pela pior e mais odiosa das perdas: a de preciosos recursos humanos. Uma parte da população brasileira, excluída pela falta de oportunidades naturalmente geradas quando há uma educação de qualidade, pouco pode contribuir para o bem comum e o faz muito abaixo do que seria possível se existisse uma boa escola pública e gratuita.
Ao mesmo tempo, nosso país está superpovoado de programas de controle de qualidade da educação, coordenados pelo MEC. Os críticos mais enfáticos afirmam tratar-se de uma centralização que não respeita exatamente a maior riqueza deste país continental: sua diversidade.  Para essa corrente, o Governo Federal promove uma tentativa de tudo querer saber e controlar, ignorando vontades e liberdades individuais à moda BIG BROTHER (vide “1984”, de George Orwell). Crítica talvez  exagerada, até porque o controle de qualidade em educação é indispensável. O que deveria ser levantado como crítica, certamente, é que controlar qualidade não é o mesmo que melhorar qualidade.  E nisso o Governo realmente deixa a desejar... Outra crítica a considerar é que desde que o controle de qualidade virou moda e se multiplicou no Brasil nos últimos anos, os gastos correspondentes tornaram-se extremamente elevados. Aí cabe a pergunta:  não seria mais  razoável usar esses mesmos e vultosos  recursos para efetivamente melhorar a qualidade do sistema?  O mundo todo já sabe que a qualidade da educação brasileira é medíocre e não é preciso mais nenhuma prova disso. 
Realmente, o controle de qualidade na educação brasileira precisa sofrer uma verdadeira revolução. Essa medida é urgente, em  especial devido à evolução quantitativa e à diversificação da Educação a Distância, um produto totalmente distinto da educação presencial e que merece um enfoque específico de vigilância da qualidade..
•          AGÊNCIA  NACIONAL DE QUALIDADE DA EDUCAÇÃO (ANVIQUE)
É chegada a  hora de se criar, no Brasil, uma AGÊNCIA  NACIONAL DE VIGILÂNCIA DA QUALIDADE DA EDUCAÇÃO!  -  órgão nascido desse desejo de dispor de um motor de promoção da melhoria qualitativa da educação nacional.
Precisamos de uma agência reguladora caracterizada pela independência administrativa, estabilidade de seus dirigentes durante o período de  mandato e autonomia financeira.   Na estrutura da administração pública federal, a agência seria vinculada  mas não subordinada ao Ministério da Educação, e sobretudo isenta da burocracia esterilizante que caracteriza o MEC. Aliás, ao lado da criação da agência, impõe-se uma grande reforma administrativa no MEC, um dinossauro extremamente caro, que ultimamente não pode queixar-se da falta de verbas, mas do qual os contribuintes podem queixar-se pelo desleixo em relação aos recursos que distribui. Seus dispêndios com as ONGs amigas merecem uma atenção especial e dão uma tremenda trabalheira ao Tribunal de Contas da União, Ministério Público etc. A duplicação de atribuições, a falta de coordenação interna, e os inúmeros e repetidos erros grosseiros, como os cometidos na realização do ENEM, já custaram muitos milhões ao contribuinte. Quando se ouve a declaração de que haverá uma destinação de 10% do PIB para a educação, os temores devem aumentar exponencialmente, pois o problema da nossa educação deficiente é muito menos a falta de recursos e muito mais o gasto equivocado, desviado de sua finalidade, multiplicador do que está errado.
A Agência teria como área de atuação todos os setores relacionados à qualidade da educação da população brasileira. Seria um órgão para fazer estudos e pesquisas aplicadas, promover experimentos, estimular a inovação, premiar as boas práticas e punir a fraude e o ensino de má qualidade. Órgão para lutar permanentemente por essa  melhoria qualitativa e ordenar/coordenar os esforços que já estão sendo realizados nesse sentido. ANVISA, ANP, ANEEL, ANATEL, ANSS e muitas outras estão aí, atuando...  Uma agência especializada para intervir no mais grave problema brasileiro não seria também oportuna? Sabemos todos, no Brasil, que algumas Agências são criaturas inteiramente dóceis aos seus criadores – que estão ou estiveram no poder – mas é preciso correr esse risco, que dependerá muito da legislação de sua criação e regulamentação e da qualidade intelectual e moral de seus dirigentes.
Essa medida de criação de uma agência especializada no Brasil é compatível com uma das premissas em que se deveria basear um programa visando elevar a qualidade da educação brasileira: o controle de qualidade como tarefa rotineira dentro do sistema de ensino. Com um enfoque no qual, porém, deve-se atribuir aos alunos e seus responsáveis um papel de relevo nesse controle. Exatamente como ocorre atualmente, de forma corriqueira, com o consumidor de bens em  geral. A fiscalização por parte de agentes governamentais deve existir, mas ser minimalista. A do consumidor, essa sim, deve ser intensiva e onipresente.  Recordemos a menina, aluna em Santa Catarina, e os  efeitos de suas notícias singelas sobre sua sala de aula e sua escola, apenas descrevendo seu cotidiano, mas suscitando até ameaças e represálias, o que prova a força da palavra denunciadora,  partida dos estudantes. É do clamor público que pode nascer a educação de qualidade no Brasil.
A luta pela melhoria da qualidade da educação é obviamente universal e já temos inclusive modelos que deverão ser observados. O Chile criou recentemente (2012) uma agência especializada em qualidade da educação, um atestado da dificuldade encontrada por aquele país ao enfrentar essa questão. A Espanha, desde 2002, tem sua ANECA - Agencia Nacional de Evaluación de  la Calidad y Acreditación, que é uma fundação estatal cujo objetivo é contribuir para a melhoria da qualidade da educação superior mediante a avaliação, certificação e acreditação de professores e instituições de ensino.

A sigla ANVIQUE - Agência Nacional de Vigilância da Qualidade da Educação sugere propositadamente que se pode mudar o triste  cenário...

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

EDUCAÇÃO COM GARANTIA DE QUALIDADE

Acredito na importância da educação continuada e procuro atualizar-me sempre, exercendo cotidianamente minha “autonomia para o autodidatismo” a qual  conquistei há muitos anos, “aprendendo a aprender”.
Isso não significa estar fora de cogitações que no futuro eu venha a estudar de modo mais sistemático e formal, em alguma instituição confiável, em curso a distância ou presencial. Nesse caso, porém, mesmo matriculado em estabelecimento de boa tradição, acho necessário atualmente observar uma condição “sine  qua non”: firmar um contrato de prestação de serviços em que a instituição de ensino daria “garantia de qualidade” da educação que me será ofertada. 
Garantia de qualidade da educação é um conceito novo, mas não implica em exagero.  Justifica-se plenamente, nestes tempos de vertiginosa evolução científica e tecnológica, em que tudo muda velozmente, alterando métodos e processos de produção, tornando obsoletos equipamentos e habilidades adquiridas. Era de descontinuidades, em que conhecimentos aparentemente consolidados são ultrapassados e até valores humanísticos são abalados e substituídos com rapidez. Diante disso, cabem ao estudante, perfeitamente, algumas perguntas definitivas: o que eu aprendi, ainda vale ao fim do curso? Valerá no futuro? Por quanto tempo?
Dois exemplos da vida real, muito comuns, podem clarificar a questão:
a)      Um operário da indústria quer especializar-se e para isso procura um curso de educação profissional em que aplica suas parcas economias. A parte prática desse aperfeiçoamento é ministrada em equipamentos próprios do estabelecimento de ensino. Após concluir o curso com sucesso, ao candidatar-se a um emprego, o trabalhador tem o desprazer de verificar que sua formação já estava ultrapassada quando lhe foi ministrada, posto que foram utilizadas máquinas obsoletas, não mais em uso nas fábricas em funcionamento. Os potenciais empregadores consultados negar-lhe-ão a vaga e seu esforço estará perdido;
b)      Um profissional de nível superior descobre um nicho de mercado de trabalho altamente remunerador  e sem muita concorrência, vislumbrando a oportunidade de ocupar um bom emprego nessa área. Precisa, porém, cursar um MBA de um ano de duração naquela especialidade - com a qual não tem muita familiaridade. Investe seu tempo e dinheiro nos estudos e depois de sua conclusão sai à busca do cobiçado posto de trabalho. Entrevistado pelo RH das empresas que procura, verifica que os requisitos e as exigências para o exercício profissional pretendido não foram cobertos pelos ensinamentos que absorveu no curso, pois nesse interim a tecnologia evoluíra e até os paradigmas mudaram. O MBA ignorou as mudanças do mercado e a aspiração por um emprego melhor fracassou.
A decepção desses dois trabalhadores pode ser facilmente percebida e suas razões bem determinadas, pois em ambos os casos havia uma grande especificidade da formação que demandavam para atingir suas metas. O mesmo ocorre – embora veladamente - com a educação geral de má qualidade. Quando a escola de ensino fundamental ou o curso de nível médio pecam na qualidade, talvez os estudantes (e seus responsáveis) não consigam percebê-lo de imediato com clareza. Poderão desconfiar porque, por exemplo, os professores faltam muito, a parte administrativa da escola é desorganizada e burocrática, as aulas são tumultuadas  e os horários não são cumpridos.  Mas ignoram o essencial – seu baixo nível qualitativo – e sofrerão os resultados danosos ao longo do tempo. Não só no mercado de trabalho,  mas em várias outras dimensões de suas vidas e talvez para todo o sempre – a menos que haja uma intervenção corretiva, por meio da educação continuada, uma solução emendativa  para muitos.
As instituições que prestam serviços educacionais têm que prover meios, aos seus clientes, de se defenderem dessa possível perda de efetividade do seu aprendizado. Obrigatoriamente no curto prazo e eventualmente até a longo prazo. Seria isso possível? A resposta depende da criatividade dos educadores, que certamente encontrarão os meios necessários. Uma instituição preocupada com a qualidade de sua função docente manterá, permanentemente, estruturas próprias visando o objetivo de garantir a pertinência dos ensinamentos ministrados a seus alunos. Como, aliás, ocorre em outras áreas de prestação de serviços.
Na terminologia dos órgãos que se dedicam aos estudos sobre qualidade em geral, o “conceito de "Garantia" está associado ao risco potencial de não-qualidade. Em outras palavras, um produto (bem ou serviço) tem garantia de qualidade quando seu fornecedor estabelece um processo de trabalho de tal forma que a probabilidade de falhas no produto seja nula. Um Sistema de Garantia da Qualidade é um conjunto planejado de atividades, que se adiciona ao processo natural de fornecimento de um dado produto, com o objetivo de reduzir o risco de falhas.
Os Sistemas de Garantia da Qualidade foram inicialmente desenvolvidos a partir de exigência explícita de clientes em determinados segmentos de mercado. Esses segmentos de mercado se caracterizavam pelo fato de que o custo provocado pela não-qualidade  do bem recebido por esses clientes era muitas vezes superior ao preço do bem adquirido.” ( http://www.qualidade.com/glos-01.htm, Capturado em 20/01/2014).                                                                                                                              Essa mesma fonte especializada adverte que o custo gerado pela não-qualidade inclui muitos “danos provocados à sociedade”, uma realidade com a qual nos defrontamos a todo instante, quando são noticiados erros médicos grosseiros, desabamentos por força de projetos de engenharia falhos, acidentes de trânsito por imperícia do condutor, catástrofes as mais variadas por falta de gestão eficaz na administração pública, repetidos acidentes de trabalho por inobservância das normas de segurança, ações policiais desastradas e assim por diante. O custo da má qualidade da educação, em todos os níveis e modalidades, é elevadíssimo, do ponto vista humano e material.
Nos dois exemplos citados, a garantia de qualidade seria possível com medidas óbvias. Instituições que se dedicam a formar para o mercado de trabalho devem estar em dia com a tecnologia mais moderna da área em que atuam, prestar atenção  permanente à evolução dos respectivos setores de produção, contratar professores que conhecem o “estado atual da arte” na sua matéria, utilizar-se de equipamentos e materiais atualizados. Consultoria de profissionais especializados, intercâmbio com os meios empresariais, contatos com órgãos que fazem a intermediação de emprego etc  são algumas providências que devem se tornar rotineiras. Dessa forma, a qualidade da educação profissionalizante seria provavelmente preservada no curto prazo, embora mudanças radicais na tecnologia do setor sejam possíveis e imprevisíveis. Aí entrariam os instrumentos emergenciais de “recuperação de qualidade”.  O estabelecimento pode oferecer aos seus ex-alunos, durante os anos imediatamente posteriores à conclusão de seus cursos, a baixo custo ou até gratuitamente, o acesso a material didático  (apostilas, vídeos, programas de computador ou mesmo cursos online) apresentando conteúdos que atualizem conhecimentos e habilidades porventura tornados obsoletos durante o período pré-estabelecido. Seria uma assistência técnica que é parte da garantia oferecida. Nos casos extremos, pode-se até prever o ”recall” para o aluno refazer parte do curso ministrado em que ocorreram falhas comprovadas ou cujo conteúdo foi superado, parcial ou integralmente, no mundo real.
Tratando-se da educação geral, a concretização da “garantia de qualidade” é mais complexa, mas a solução estará quase sempre em disponibilizar para a população as várias modalidades da educação continuada a seu alcance. Oferta universal, que é tarefa que cabe aos poderes públicos e é negligenciada em nosso país.
A realidade  prova que o direito à educação, assegurado em nossa Constituição, não é suficiente. Todo brasileiro deveria ter garantia de acesso a uma educação de qualidade.

Comente, critique, concorde, discorde, mas apresente suas ideias em favor da educação.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

PRIORIDADES NA EDUCAÇÃO DE QUALIDADE PARA O BRASIL


A necessidade de uma melhoria qualitativa da educação brasileira, abrangendo todos os seus níveis, é indiscutível e urgente.  Todos os brasileiros preocupados com o futuro de nosso país estão conscientes disso e anseiam pelas realizações capazes de produzir essa mudança inadiável. As comparações internacionais disponíveis confirmam essa deficiência geral com clareza. Aí estão, por exemplo, os pobres resultados obtidos por nossos estudantes de 15 a 16 anos de idade nos testes do PISA (da OECD), os quais sistematicamente classificam o grupo de alunos representantes do Brasil nas últimas colocações dentre os países participantes. Da mesma forma, os rankings internacionais de qualidade dos estabelecimentos de ensino superior, em que a posição desfavorável de nossas universidades é uma triste constante.  Nas análises concernentes aos avanços científicos e tecnológicos, realizadas nos últimos anos, baseando-se em inovações, patentes requeridas e concedidas, artigos publicados em revistas conceituadas, prêmios internacionais conquistados, o Brasil também está cronicamente na retaguarda. Os bons resultados obtidos rotineiramente pela elite dos estudantes brasileiros de educação profissional, na competição mundial denominada World Skills, assim como eventuais conquistas individuais em Maratonas internacionais de conhecimento específico de certas matérias, são exceções que não apagam o insucesso global da educação brasileira. Para um país, não há qualidade dissociada da quantidade e de nada adianta ter uma elite intelectual poderosa  mas reduzida, ao lado de uma grande massa populacional com baixo perfil de educação.
·         A QUESTÃO DA PRIORIDADE
Uma educação de qualidade é obviamente a norma desejável universalmente para a totalidade dos sistemas de ensino, devendo permear todos seus níveis e modalidades. No caso da educação brasileira, que vive uma crise aguda e geral, é preciso agir com a maior urgência possível. Para fins práticos, porém, antes de  apontar medidas, projetos e programas para aprimorar a qualidade da educação nacional, há uma primeira questão sobre a qual é preciso decidir.  Por onde começar?  Quais as prioridades na abordagem e solução dos problemas existentes, já que os recursos humanos e financeiros são limitados e a meta bastante ambiciosa?
Parece claro, por várias razões, que essa prioridade se concentra nas séries iniciais da educação básica, em particular quando da escolarização obrigatória. Há boas razões para isso. O ensino fundamental tem os maiores índices de reprovação, repetência e distorção série-idade do sistema educacional, indicadores incontestáveis de sua qualidade deficiente. Pela educação obrigatória  passam todos os brasileiros, de todas as latitudes, classes de renda, procedências sociais etc. Aí está o momento certo para proporcionar-lhes uma educação de qualidade, por uma questão de equidade, de democratização de oportunidades. As crianças e adolescentes cujas famílias têm perfil educacional mais desfavorável e níveis de renda que caracterizam a miséria e a pobreza, principalmente essas devem receber, em nome da justiça social, tratamento prioritário e um apoio especial em sua passagem pela escola, principalmente nos anos iniciais do ensino obrigatório, pois esse é o único meio de equalizar oportunidades, já que lhes falta o adequado suporte no lar. Além disso, uma boa educação no início da vida escolar vai reduzir custos atuais e futuros, em função da consequente queda nos índices de reprovação, repetência e evasão nas séries posteriores. Atribuída a prioridade máxima ao ensino fundamental, segue-se a prioridade para o ensino médio. Extremamente deficiente, frequentado por jovens que geralmente ainda necessitam de orientação quanto aos caminhos a seguir, tanto na própria educação quanto na carreira profissional, o ensino médio merece certa prioridade, para evitar, por exemplo, o desalento que afeta os milhões que nem estudam nem trabalham.
Essas escolhas não significam, absolutamente, que se deixará de propor e executar medidas aperfeiçoadoras do ensino superior, também notoriamente deficiente em nosso país. Prioridade não se confunde com exclusividade e um ensino superior de qualidade é objetivo permanente de todas as sociedades modernas.
·         AUTONOMIA PARA O AUTODIDATISMO
Reforçando o cabimento dessa sequência de  prioridades, um conceito que se deve  lançar e difundir, nestes tempos de educação a distância em grande crescimento, tanto do lado da oferta quanto da demanda, é o conceito de “autonomia para o autodidatismo”. Trata-se daquele estado em que a pessoa já sabe e pode, por si só, buscar conhecimento de modo apropriado, sem recorrer à educação escolarizada, presencial.  A partir da conquista desse estado de “autonomia para o autodidatismo” a pessoa ganha a capacidade de multiplicar as possibilidades, ao seu alcance, de acesso ao conhecimento em geral, tendo em vista o arsenal tecnológico disponível no mundo atual e que pode ser usado, com ou sem adaptações, para fins educacionais. O momento em que esse estado é alcançado, varia de pessoa para pessoa, em função de inúmeras variáveis, sendo mais relevantes o nível de  escolaridade concluído e a qualidade da educação recebida até então. Admitido esse conceito, o corolário é que sob o aspecto do indivíduo, a educação é mais prioritária antes que ele adquira essa autonomia. Ou seja, nos seus anos iniciais, especialmente na fase de alfabetização, a seguir no restante do ensino fundamental  e só depois no ensino médio.Outro ponto a ressaltar, nestes tempos de supremacia avassaladora das TIC (tecnologias de informação e comunicação) é que um dos objetivos específicos da educação deve ser o de fomentar, logo em seus anos iniciais, a  busca dessa autonomia libertadora, para que a pessoa possa centrar sua educação em  seus reais interesses e motivações, personalizando-a. É a educação para a liberdade, em que os alunos vão livrar-se das “xaropadas” de professores que não dominando os conteúdos pertinentes e não tendo como ensinar verdadeiramente, passam a doutrinar os estudantes com o politicamente correto e todo o repertório ideológico que serve de álibi para encobrir suas deficiências de formação. Problema comum dos corpos docentes de muitos países, especialmente da América Latina, Brasil inclusive.
Adquirida essa autonomia, o estudante já não dependerá tanto, para sua formação, da educação escolarizada, presencial, muitas vezes massificadora, projetada para atender a um  “aluno médio”  que só existe em teoria.
Comente, critique, concorde ou discorde, apresente suas ideias em favor da educação

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

BRASIL PISA EM FALSO NA EDUCAÇÃO


Fui convidado pela OECD (Organisation for Economic Co-operation and Development) para participar do webinar (Seminário pela internet) de 4 de dezembro de 2013, no qual Andreas Schleicher (Deputy Director for Education and Skills da OECD) apresentou seus comentários técnicos sobre os resultados do teste de PISA realizado em 2012 . Aplicado em mais de 510 mil estudantes com idades entre 15 e 16 anos, residentes em 65 países, o PISA é considerado atualmente o melhor aferidor internacional da qualidade comparada da educação básica. O Brasil se saiu muito mal, assim como nos testes anteriores de que participou. Não procede o argumento tosco de que o Brasil melhorou sua posição em relação aos testes anteriores, pois o modesto crescimento  de nossas notas deriva de que a base de comparação era muito baixa e piorar era quase impossível.
A OECD merece credibilidade e sempre me pareceu, sob o aspecto técnico, a mais competente das agências internacionais que conheci. E não foram poucas, especialmente ao longo dos 22 anos em que trabalhei no setor público, nas três esferas administrativas (federal, estadual e municipal). Meu primeiro contato com a OECD traz-me recordações curiosas. No início dos anos 60, após minha formatura em Engenharia, eu trabalhava na CONSULTEC – empresa de consultoria econômica de excelente reputação – e eventualmente escrevia artigos para a revista mensal da APEC (Análise e Perspectiva Econômica), dirigida por Victor Alves da Silva Filho, que foi o fundador e primeiro chefe do Escritório de Pesquisa Econômica Aplicada - EPEA (hoje denominado IPEA). Eram matérias variadas, não assinadas, com as quais eu melhorava meu modesto orçamento de recém-formado. Um desses artigos, de 1964, descrevia as características metodológicas do Projeto Regional Mediterrâneo, idealizado e liderado pela OECD, que consistia em um conjunto de planos educacionais para os países então mais pobres da Europa (Portugal, Espanha, Itália, Grécia, Turquia e Iugoslávia). Ao final, meu artigo exortava as autoridades brasileiras a tomarem iniciativa semelhante para a nossa tão combalida Educação. 
Roberto Campos era Ministro do Planejamento e leu o artigo. Interessado, perguntou a Victor da Silva quem o escrevera. Semanas mais tarde, o resultado prático: recebi uma sugestão de Mario Henrique Simonsen, meu colega de trabalho na CONSULTEC, para que aceitasse um cargo no EPEA, onde ficaria encarregado de dirigir a área de Desenvolvimento Social do importante órgão que estava nascendo. 
Aceitei, deixei a CONSULTEC e em fevereiro de 1965 assumi o cargo de Coordenador de Desenvolvimento Social no EPEA. Eu tinha 27 anos de idade, muita vontade e dedicação, trabalhava e estudava arduamente (até mais de 12 horas por dia), mas teoricamente era muito jovem para enfrentar as grandes responsabilidades do posto.  Meses depois de começar a trabalhar, já elaborando o Diagnóstico de Educação e Mão de Obra para o futuro Plano Decenal que o Governo Castello Branco legaria ao sucessor, fui avisado de que receberia a visita de Angus Maddison, técnico-senior da OECD e um dos artífices do Plano Regional Mediterrâneo. Eu o conhecia de nome e pelos seus estudos publicados. Fiquei entusiasmado, pois Angus Maddison era considerado um dos maiores craques desse setor do conhecimento. Recebi-o, conversamos muito, ele me fez diversas perguntas sobre as atividades do setor que eu dirigia. Sempre alegre, com o inconfundível humor britânico, prometeu voltar e assim o fez mais duas vezes, com alguns meses de intervalo. De novo muitas perguntas, sugestões, conjecturas sobre o futuro. Certo dia, sempre bonachão, ao despedir-se, me disse que não voltaria mais. E completou: you are doing very well ! That`s enough ! Bye ! Entendi então que o Ministro Roberto Campos – muito acertadamente – colocou o “cobrão” Angus Maddison para supervisionar meu trabalho, que ele considerava estratégico,  da maior importância para o Brasil.
O último livro de Angus Maddison é notável. Intitulado “Economia Mundial : Uma Perspectiva Milenar”, fornece uma visão abrangente do crescimento e níveis de população mundial desde o ano de 1000. Nesse período , a população mundial aumentou 22 vezes, a renda per capita 13 vezes e o PIB mundial quase 300 vezes.
Os maiores ganhos ocorreram nos países ricos de hoje ( Europa Ocidental, América do Norte , Austrália e Japão) . A diferença entre o líder mundial - os Estados Unidos – e a região mais pobre - África - é agora de 20 para 1 . No ano de 1000, os países ricos de hoje eram mais pobres do que a Ásia e a África .
O livro tem vários objetivos: primeiro, é um esforço pioneiro para quantificar o desempenho econômico das nações a muito longo prazo; em segundo lugar, permite identificar as forças que explicam o sucesso dos países ricos e explorar os obstáculos que impediam avanço em regiões que ficaram atrasadas; o terceiro objetivo é o de controlar a interação entre os ricos e o resto, para avaliar o grau em que essa relação foi simplesmente de exploração. “Economia Mundial : Uma Perspectiva Milenar” é um "must " para todos os estudiosos da economia e da história econômica , enquanto que o leitor comum vai encontrar muita coisa interessante e fascinante. É também uma  monumental obra de referência.

VIAGEM AO PASSADO

O Irã está na moda e minhas recordações daquele país mais vivas do que nunca... Estive no Irã em 1976, para participar da Conferência In...